Em meio a ebulição social veio a música, regressaram ao recreio os rapazes sem se deixar enganar pelo tempo e os contextos. A banda 340 mil subiu ao palco do Centro Cultural Franco-Moçambicano (CCFM), em Maputo, para encontrar um público que desesperava, embora em êxtase, pela música que apela à uma estranha tranquilidade, a metáfora dos sentidos e vibração. E eles vieram só um pouco depois das 20 horas, hora marcada para o concerto, que antecipava o verdadeiro “show ao vivo”, que causou “amor e espanto” e uma correria desenfreada para a compra dos bilhetes, tendo esgotado em cerca de cinco dias. Bom para nós os que fomos por últimos.
Foi Rui Soeiro o primeiro a entrar no palco e pegou na sua guitarra-baixo. Seguiu-se Paulo Chibanga, o baterista que virou uma das pessoas mais influente da cena artista moçambicana, conectando artistas de Moçambique para o mundo e do mundo para Moçambique; depois entrou Tiago Correia-Paulo, o criativo da guitarra solo, acenando para a plateia, como quem vem encontrar-se com a ‘malta’. Os três prepararam o enredo para chegar Pedro da Silva Pinto, aquele que parece nada querer, para dar voz e sonoridades líricas. Era o começo do fim da secura.
Paulo era o que emitia os sinais do fim da angústia. A alegria de estar no seu lugar. Qual maestro de uma orquestra, “gesticulava” para que todos se levantassem, para que a alegria de viver aquele momento não fosse contida, para que não se reprimisse a vontade de acenar, nem que seja com o abanar sereno do corpo, da cabeça, ao bom estilo dub. Rui dava o toque agudo necessário para o balanço. Tiago dava asas, o apelo aos sentidos e lá estava Pedro, a atribuir palavras a tudo o que se passava, a toda aquela vibração, a toda aquela apoteótica recepção.
“You knock me over with your kung fu smile”, cantaram, enquanto o público de várias gerações e origens, é que deixava-se, na verdade, derrubar-se com aquele modo ‘kung fu’ de fazer música, tal mestres, a deixar o ritmo ‘bater’.

Tiago ia dedilhando a guitarra quando parou e atirou “vou ter que repetir isto, perdoem, já estou cota”. O público pareceu recusar-se a admiti-lo. Foi em razão de ser, a energia transmitida ia para além das idades. Os diálogos entre os três, Tiago, Paulo e Pedro – com os nomes a remeter-nos para um cenário bíblico – conferiram uma atmosfera intimista, humana e humanizada. Envolver o público no acto de criar e fazer a música. Mostrar a fragilidade, a temporalidade e essa coisa estranha que estar no palo, enquanto os outros olham com os olhos esbugalhados, cheios de magia e aquela saudade que ainda desvanece, na realidade instalada: são mesmo os 340ml ao vivo. Muitos, como eu, não se lembrarão de os ter visto em palco.
E a noite era de recreio. A sala grande do CCFM reduzia-se no calor humano e na alegria infantil daquele jeito de actuar dos já “cotas”. Paulo recordava-nos, incansavelmente, dos cerca de 15 anos de paragem e os desafios do restart, de tocar com o mistério dos anos 2000 naquela nada serena cidade sul-africana de Joanesburgo. Mas os quatro estavam para “as curvas”. E ninguém parou de cantar, com os coros a serem atribuídos a uma plateia que deixou de ser plateia, era uma companhia para Pedro, que se deliciava a dar voz à letra e nas folgas fazia o serviço extra, nas melodias, orada batendo nos teclados, ora soprando.
Quando tocaram o sucesso “Midnight” a temperatura já estava óptima e gritar fez bem, como aliás, cantam: “Stars are out, the temperature is right / Hold my hand, it’s ok if you scream”. E ficamos todos a sorrir. E depois ficamos todos a pedir mais e mais, eles foram e voltaram. E depois foram e voltaram mais uma vez. E depois o Paulo veio buscar o que deixara atrás, sem sentar-se na bateria. Aí percebemos que sim, tínhamos de despertar do sono, e lembramos que eles pediram, “Sorry for the delay”, então fica a resposta, We apologise for the delay.


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