A arte dos afetos de Tizta Berhanu

Quando entramos na galeria Addis Fine Art, situada no coração da capital da Etiópia, chama-nos a atenção a tranquilidade do espaço e o impacto visual causado pelas cores fortes e nas figuras que preenchem os quadros. As personagens parecem indiferentes a tudo e a todos, apenas entregues a si, numa interdependência e leveza que contrasta com a luz das cores. Ocorre-nos o silêncio e a quietude, em primeira instância, de seguida despertamos nos detemos na forma como se preenchem os vazios. 

A artista é Tizta Berhanu (n.1991) e os quadros monocromáticos vão contra o frenesim destes tempos. Desafia-nos a esquecer os ponteiros do tempo, a abstração das coisas ao redor e dedicar toda a atenção às pessoas, assumir o amor como um ofício em que temos de nos esmerar, deixar que ele seja a casa (revisitando as palavras de Eduardo White), onde as almas se multiplicam na generosidade do gesto, dos sentimentos, na poesia do afeto.

Nos dias em que temos os olhos voltados para os outros, como se disso dependesse o rumo das nossas vidas, a pintura de Tizta traz figuras que estão voltadas para si ao mesmo tempo em que se abraçam e formam uma comunidade dos afectos. As obras sugerem a unicidade da alma, os corpos, esses, são de propriedade indivudal, mas eles vivem entrelaçados uns nos outros. Por causa dessa necessidade que se tem pelo outro, no sentido do “nós” a que nos desafia o amor, não se distingue as divisões, os limites, onde começa o corpo de uma mulher e começa de um homem, onde habita a criança e até onde vão as mãos que a acolhem. É cada um é mim, como bem o disse o poeta Nelson Lineu. Esse olhar para o outro como a si mesmo. O amor é sobretudo dar-se antes de receber. Não é uma troca, não é uma transação, com impostos, juros ou bónus. É a natureza humana no seu ponto mais alto, quando olhar para nós significa pouco. É estranho como uma certa angústia se nos vem daquela ternura, a melancolia e a serenidade que provém da segurança em estarmos tão juntos que não se conhecem os limites. Em tempos de “likes” e “shares” e “hashtags” que nos simulam estarmos em vida comunitária, em vidas partilhadas. 

Ao intitular “Agape” à exposição, como rebuscado da palavra grega antiga que designa a forma mais elevada de amor, um amor divino que transcende e resiste a todos os obstáculos, Tizta mostra o que lhe interessa na complexidade humana. Os sentimentos que não se assentam nas coisas, mas no calor que o outro transmite, na confiança que nos põe a dormir no côlo do outro, nesse gesto genuíno de experimentar o sossego e a confiança.

Addis Abeba que está a transformar a olhos vistos, bem distante daquela que conheci em 2019, que parecia morfar, podre, sem sinais de alegria e aquela frustração de se estar na capital da diplomacia africana, na altura praticamente apenas a sede da União Africana a ser um dos edifícios mais vistosos.  A actual cidade tem um certo brilho, edifícios novos, estradas, jardins e as pessoas num baile de um “à vontade”. A cidade está numa transformação na arquitectura, nos estilos de vida e na organização social.

As artes plásticas na Etiópia tem revelado artistas que facilmente conquistam o circuito artístico internacional. Para isso também contribuem galerias como a Addis Fine Art, fundada em 2016 por Rakeb Sile e Mesai Haileleul, com foco em artistas etíopes, do Corno de África e das suas diásporas e que funciona como uma importante ponte para o alcance aos mercados internacionais. O caso de Tizta Berhanu é um exemplo, tendo exibido o seu trabalho em outros países africanos e na Europa, por exemplo.

De volta à exposição “Agape”, a aposta nas cores que se associam à natureza, castanho e cinzento de terra, o preto, o marrom, o azul e o amarelo, não terão sido escolhidos por acaso. O amor que se experimenta no corpo, passa para a natureza, a água, a terra, as plantas, mas também o sonho. É como se a artista nos desafiasse a partilhar a intimidade com o que nos mantém vivos, o vento, o sol, a chuva, a areia e o intangível sentimento que é, afinal, a força do individual e do colectivo.

Em algumas obras é como se a artista quisesse que o espectador experimentasse a atração física, assim como o confronto, a verdade, a empatia e a honestidade. Parece controverso, mas não é assim, às vezes, o campo dos sentidos? Os olhos não tem segredos, nem enganações. 

A própria artista tem uma percepção que vai para além do tato, do tangível ou do mensurável. Não se trata apenas de uma abstração flutuante, mas de algo real e vivido. Não está longe, mas perto, por vezes à distância de um braço. Além disso, se olharmos para ele de um ponto de vista teórico, é suposto ser o todo final; um concreto onde todos os pequenos detalhes se juntam num grande todo; como o conceito de Deus, por exemplo.  Por isso, não o posso evitar, mesmo que o tente fazer intencionalmente. explica Tizta Berhanu.

Se a temática do amor já foi explorada até a exaustão, ao decidir abordá-lo, o artista tem de estar muito certo do que faz. E isso Tizta conseguiu, desde o conceito, a técnica e a empatia que transmite, fazendo com que o espectador seja parte do conjunto da obra. A forma como aplica a tinta sobre tela, preenchendo os espaços deixando os vazios necessários, colocando cada elemento no seu devido lugar onde a preocupação não é no valor utilitário, é sobretudo a humildade de deixar um lugar para os outros enxergar com os sentidos o que pretende transmitir. Ou seja, cada observador terá de intervir para a constituição do cosmos e dessa energia infinita da empatia.

Tizta Berhanu nasceu em Addis Ababa, Etiópia, onde vive e trabalha. Licenciou-se em 2013 na Universidade de Adis Abeba, em Belas Artes e Design. Aos 34 anos tem todo um caminho a percorrer, experimentando, confrontando, mas não há dúvidas sobre o seu instinto e técnicas apuradas. 

E porque a sorte anda com os peregrinos, enquanto fazia a visita à Addis Fine Arte, Mesai Haleileleul, o fundador da galeria, falou sobre a plataforma que tem a ambição de revelar artistas emergentes, ao mesmo tempo que procura projectar o melhor das artes plásticas etíopes pelo mundo. A ideia também, segundo Mesai, em conversa informal e que por isso não cito na primeira pessoa, a ideia é criar condições para que a arte possa ter o seu próprio tempo, que o caminho seja feito em harmonia com a natureza e com os princípios que cada artista persegue. Enquanto isso, ser um centro onde a arte africana possa se afirmar.

A exposição “Agape”, foi inaugurada a 6 de Janeiro e pode ser vista até 8 de Março na Addis Fine Art, na capital etíope.

Deixe um comentário

Sobre

EDUARDO QUIVE é jornalista e escritor, baseado em Maputo. Sou trabalho inclui a produção de reportagens multimédia. É autor de dois livros de poesia, um de contos e co-autor de e co-organizador de mais de cinco colectâneas de contos. Ler Biografia

PESQUISAR