Nas ruas de Mysuru e uma carta a R.K. Narayan

Guarda este momento. Vais te lembrar dele quando já nada houver para lembrar. Do materialismo ou da pressa para a afirmação, quando correr atrás não for mais do que uma metáfora para te manteres vivo, precisarás das coisas que se sustém no tempo, intemporais. Não creio que isso vá te acontecer tão depressa, pois és jovem, mas um dia sempre acontece. Não será na velhice, que a velhice é coisa preciosa para desperdiçar com memórias iguais a estas. Mas guarde. Guarde porque a tua mente precisa preencher-se de vazios, também. Não se pode passar os dias apenas com contas de somar na cabeça. E nem a vida pode passar, sem que se guardem momentos como estes, por mais vazios ou desprovidos de substância que se pareçam.

Caro senhor R.K. Narayan, fomos a sua casa e não estava. Pior do que isso, a casa estava encerrada. Passava das cinco da tarde, mas essa não foi a principal razão para termos ficado à porta. Era terça-feira.

Já que não o conheço, não vou meter-me em enganações. Só ouvi falar de si quando chegamos a Mysuru — aprendi a dizê-lo como os próprios indianos, desapeguei-me do inglês Mysore —, por volta das 12h40. Fomos ali ao Bean Stop Café. O aspecto intimista e o design minimalista são incríveis, mas o preço dos chás e cafés foi a martelada da decisão que nos fez entrar. Olhei para as paredes e estavam lá as marcas de pincel fino com traçados da cidade. Fiquei-me por wraps de carnes que pedi gentilmente «without spice», ao que o rapaz de cara lisa acenou com o típico abanar de cabeça dos indianos bem-educados, quando querem dizer, tu aguentas. Delicioso que estavam os wraps a que tenho por manias chamar shawarma, realmente aguentei o piri-piri. Serviço extra teve a Estelle com o seu petisco que para além dos temperos picantes tinha os graus de piri-piri espalhados. Escusado será dizer que ela comeu e lambeu os beiços. Não provei o café, mas o Thomas disse que estava bom. E se o Thomas, um alemão de Colônia, diz que está bom, está super para um subsahariano como eu. Passei a maior parte da minha pouca vida nos aromas de Ricoffy contrabandeado da África do Sul, quando descobri que há café e Café, já era tarde para ganhar o hábito. Fiquei-me pela água.

Foi a Chiranthi que trouxe o seu nome à mesa. «Em Mysuru tem a casa de Narayan», foi como um espanto. A Estelle foi depressa acompanhada no delírio. Ambas olharam-se felizes com os olhos umedecidos de encanto. «Ele é um grande escritor», disseram. E Chiranthi confessou estar no topo das suas preferências. Complacentes, as duas pouparam-me e o Thomas dos títulos dos teus livros quando perceberam que não sabemos nada sobre si. Foi gentil da parte delas, como de resto, elas sempre foram: duas almas ávidas em tornar os dias, as horas e a vida, menos pesada do que parece. «Temos de ir à casa de Narayan, estamos na própria terra dele, não acredito» disseram quase partilhando as palavras, com a beleza da diferença de sotaques, Estelle num inglês afrancesado e Chiranthi, de Sri Lanka, gritaram um eufórico Oh my God! Soubesse o senhor das abreviaturas da moda, ficava-me fácil, pois escrevo em português e pode calhar-me o erro nas palavras de língua inglesa. O Thomas escreve em alemão, a propósito. Ele está sempre a escrever, com um bloco de notas e uma caneta de tinta azul, tens de vê-lo. Conto-te depois como ele se parece um grande escritor, preocupado sempre em registar os momentos, com a própria mão, assim as palavras têm corpo. Foi o Thomas, aliás, que mandou parar o Txopela quando chegamos na cidade, para que fosse rápida a nossa chegada ao Palácio de Mysuru, o principal objectivo da visita à sua cidade. 

Vista frontal do Palácio de Mysuru

Lamento pô-lo a par da verdade, através de uma carta que nem sequer inicia com as saudações de praxe. Contente-se, pois, em saber que não cheguei a ver como vivia a família real, não invadi a vida privada nem a intimidade dos Wodeyar. Quando fiquei a saber que a entrada custava 1000 rúpias indianas fui dar voltas à esquina, como diz-se na gíria, mas literalmente. Andei pelas ruas, às livrarias e aos museus onde só me custaram uns máximos 70 rúpias para a entrada. Tenho pena que não possa ter entrado no Palácio de Mysuru, admito, a vida privada dos outros faz a vida do escritor, não é verdade? Mas pensei comigo, antes vou conhecer Zimbábue e a campa da rainha Bibi Achivanjila, depois juntar algumas moedas para os despojos de Rei de Mysuru. Tudo isso, deve compreender, são desculpas de quem tem de contar as moedas no bolso. 

As visitas à tua casa são gratuitas. Bem que pode. O senhor não é rei e não mora num palácio. Talvez, por isso, dá-se ao luxo de fechar as portas da sua casa na terça-feira. De certo não há uma romaria para visitá-lo, ainda que haja quem tenha bondade e possa dar alguma coisa para a casa. Os escritores ganham quase nada, coitados, uma ajudinha não faria mal. Mas como a espécie literária é estranha, eras capaz de não aceitar ajuda nenhuma, que não fosse lerem-te os livros. Guardo essa vergonha para mim, não ter lido ainda um livro da sua autoria.

Antes de chegarmos à sua casa que estava fechada e por isso, mais uma vez, serei incapaz de descrever os interiores, caminhei durante três horas pela cidade. Deve ter sido um acesso de loucura, imagino que o senhor o diga, quem pode andar tanto tempo numa cidade onde o barulho vem de todas as coisas? Dos letreiros cheios de informações em inglês e nas línguas indianas, dos veículos motorizados que surgem de todo lado, pessoas de todas as idades e indumentárias, cavalos, ovelhas, bois de cor-amarela. Sou da Matola, a cidade das festas de família, bodegas, onde quase toda a gente vai para dormir e fazer amor. Nestes dias custa falar da minha cidade sem recordar a imagem cinzenta das lojas e o fumo de um denso cinzento a cobrir os céus, tudo ardido na famigerada fúria popular. 

Fui à Galeria de Arte Sri Jayachamarajendra. Importava-me conhecer a cidade e o país através das obras de arte. Importava-me o diálogo, as estórias por detrás da história. A pintura, a escultura, disseram-me muito do que gostava de saber. Dei-me conta depois que não fiz uma fotografia sequer. Que foi o único lugar que não marquei na memória digital. Fiquei-me pela imersão. Fez-me bem ao coração e devo guardar para o futuro, se é que lá chegamos.

Fui para a terminar dos machimbombos. Sou moçambicano — esqueci-me de dizê-lo —, é importante saber onde apanhar o chapa. E ver como se comportam as pessoas, os vendedores ambulantes, os viajantes de várias partidas e chegadas. Há uma certa pressa em tudo, um «deixa-me subir primeiro», que em nada me espanta. Gosto da música que vem da conversa, da chamada dos cobradores, do bater dos pés no alcatrão, dos carros a chegar e partir, dos apitos dos guardas e do cheiro de comida. 

Andei pela Ashoka Road onde as joalherias alternam-se entre si, as lojas dos tecidos coloridos ombreiam com sapatarias, ferragens, lojas de utensílios e objectos metálicos do rico e sagrado artesanato; os deuses feitos de aço e bronze, a disputarem o lugar com as jóias de diamante e ouro; as motos que fazem filas nos passeios, a competir em superioridade numérica com os humanos, os chinelos aos montes nas portas, as ovelhas, as cabras e o céu azul, com os pombos em bailado ao deus sol. Ao fundo está a Catedral de São José e Santa Filomena, com os fiéis e devotos de pés descalços, homens, mulheres, jovens quase aos prantos numa via sacra mais de súplica que de paixão; olhei para o monstro que subia aos céus — não devia invocar as sombras ao falar da casa de Deus, eu sei, hábitos da minha terra em que dizemos «monstro sagrado» às coisas que tem dimensão divina —; um grupo de mulheres descia do autocarro com a lentidão dos peregrinos exaustos, mas firmes na fé, fizeram o sinal de cruz e tinham as cabeças e os ombros encurvadas, pude senti-los carregados de tormentos que pretendiam desanuviar. Tenho de dizer que me comovi ao vê-los, mais ainda quando pagaram o ingresso para falar com Deus dentro da catedral. Bem, as catedrais têm conversas que se paguem, diga-nos o mestre Vargas Llosa. 

Chegou o fim da tarde. Era a vez de ir visitá-lo à sua casa. Antes tomamos um gelado no Indra Cafe’s Paras. Escolhi o de tâmaras que é de um sabor que nunca havia experimentado, os outros foram pelo sabor das manga e chocolate. Ninguém ficou decepcionado. Depois bebemos o café que quando não se tem o cuidado sempre virá com leite nas tascas tradicionais desta cidade, talvez por isso me tenha aguentado. Já antes tinha sido assim na Estação de Comboios em Bengaluru. Lá eu fui pelo Badam, o leite quente misturado com amêndoas, cardamomo, açafrão e açúcar — desculpe o aborrecimento com esses detalhes que o senhor certamente conhece, mas se não fosse a si, não contava a ninguém estas coisas. Foi no Indra Cafe’s Paras que o Thomas foi parar à porta, qual recepcionista louco ocidental, para o espanto dos sempre muitos transeuntes, clientes e os vendedores nos passeios de todas as idades à frente do Mercado Devaraja. Ele, dentro de si e no olhar às coisas à volta, tomava as devidas notas no seu caderno em alemão. Deve ter sido sobre a multidão que se abalroa entre si, na paleta de cores quentes, nas mulheres belas nos variados feitios, nos homens de lungi, que não sai da cabeça ser uma capulana, a atravessar a praça, os cheiros fortes das especiarias, as vozes dos vendedores ambulantes que chamam os clientes com os preços sempre possíveis de regatear. Se o senhor conhecesse Maputo podia simplificar as coisas, é o Xipamanine de Mysuru. O Thomas tem ares de bom escritor, como o senhor pode notar.

Mulheres em procissão descalças
Catedral de São José e Santa Filomena

Fomos apanhar o Txopela, os quatro, como na primeira vez desde que chegamos nesta cidade, sentados quase um em cima do outro, juntos, efectivamente juntos, dei-me conta nesse instante que nunca tínhamos ficado teu próximos uns dos outros em cerca de 20 dias que vivemos na mesma casa, almoçamos à mesma mesa assim como partilhamos os jantares, além das várias cavaqueiras noturnas e matinais de pôr a conversa em dia, num estranho olhar aos processos históricos dos nossos países, e muito pouco sobre o texto literário, as cozeduras, os truques, as vias de construção que nos fariam chegar ao grande livro. Falamos da nossa relação com as coisas, com os lugares, com histórias oficiais e não oficiais, com os traumas e terapias colectivas que vão acontecendo, embora numa versão longe das nossas concepções ou cogitações. 

Devaraj Mohalla é onde fica a sua casa, esse bairro feito de colinas, subidas e descidas, enormes árvores a disputar os céus com aves de várias espécies. Mais tarde me apercebi que está ao pé da linha férrea, fico a imaginá-lo a despertar na madrugada com o chiar dos comboios e o apito de levantar a alma. São também assim as minhas madrugadas, com os apitos dos comboios da linha de Ressano Garcia. Já era assim na casa dos meus pais, mas aí era tudo como um sonho. Agora posso sentir a vibração, o barulho do motor a acelerar e a nostalgia da buzina longa que se devance enquanto procuramos adivinhar a direcção da viagem.  

O Txopela — tenho de chamar assim o vosso Tuk-Tuk —, ia passando quando avistamos a sua residência. Mandamo-lo parar ao que o motorista obedeceu com certa desconfiança: a casa pintada de branco estava envolto a escuridão. Agora que escrevo fico a imaginar o que se passou na cabeça do homem ao partir depois de deixar quatro jovens estrangeiros naquele lugar silencioso, quando a noite já era verdade.

Ficamos parados no portão. Estelle e Chiranthi foram de imediato fazer a perícia na casa. Deviam imaginar o senhor R.K. Narayan sentado na mesa a tomar o seu Masala chai. O senhor não deve tomar uma coca-cola como o poeta Craveirinha. Tenho aqui vários dias e quase não vejo ninguém tomá-la. Então as duas admiradoras tuas ficaram a tirar fotos, com troca de palavras, memórias, atmosfera e mais alguma coisa. Há sempre alguma coisa que os leitores acérrimos tiram das obras e dos autores. Nunca tinha vivido um momento igual e não podia esperar que fosse subir e descer colinas, passar mais de duas horas no comboio, caminhar por várias horas, até chegar a casa de um escritor cuja alma habitava em silêncio na sombra. Fiquei a pensar, ainda que reconheça que foi um momento de tolice, como seria se algum leitor decidisse ir até à minha casa. Aquilo é andar por estradas com buracos assassinos, planícies, machambas, atravessar rios, e se fosse entre Fevereiro e Abril ainda teria de ir à nado, rezasse para que a mafurreira que é referência da paragem, não tenha sido cortada para pôr uma barraca. Imagina o senhor que isso não será possível, tal como eu, pois não?

Queria continuar a escrever. Deu-me nestes instantes finais uma certa graça dizer o que disse. Mas a parte que viria daria-me uma certa angústia, refiro-me à exaustão de retorno ao ponto de partida, num comboio noturno, onde fomos numa cabine para os quatro, isolados de todo o mundo. Mas também, chegar ao final levanta outros princípios. Por exemplo, podia ter lido primeiro os livros, antes de fazer chegar esta carta. Vou começar por The Guide. Achei por aí na net. O senhor não se importará com a pirataria africana, não é? 

A propósito, as palavras que abrem esta carta, foi o meu monólogo diante da sua residência. Na verdade foi por isso que decidi escrevê-lo, sem esperar que respondesse. 

Bengaluru, 23.01.25

E estou eu e o condutor do Txopela que nos recebeu em Mysuru, gentilmente.

Durante Janeiro de 2025 estou em residência literária Sangam House, no The Jamun, que agradeço muito a hospitalidade.

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Sobre

EDUARDO QUIVE é jornalista e escritor, baseado em Maputo. Sou trabalho inclui a produção de reportagens multimédia. É autor de dois livros de poesia, um de contos e co-autor de e co-organizador de mais de cinco colectâneas de contos. Ler Biografia

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