isto não é um poema

quem compra um poema sobre a saudade?

os olhos embaciados decifram, palavra a palavra, o amor que te escrevo. o coração não devia guardar, o amor que sobra como o eco no vazio. posso sentir-te o cheiro de longe, a fragância dos ventos a penetrar pelos pôros; tua silhueta persiste nos rostos desconhecidos, dos entristecidos; no sorriso à venda no mercado; no suor encharcado das vendedeiras e o tatear profético dos cegos; sonhos perdidos nas estradas incompletas da cidade. quero-te e digo-o ao silêncio; quem comprará um poema sobre o incerto lugar do desejo.

quem pagará sobre a ausência.
quero o beijo que guardaste na promessa. nos cheiros encardidos, surge arrogante o teu aroma, a grossura da tua voz, os olhos cristalinos como as luzes distantes da cidade. leve, vejo-te a acenar comos um pássaro a alegrar os céus. fico a imaginar-te as feições, a desejar-te os beijos tardios e frescos, como o orvalho sobre o verde da cidade.

cantam as cigarras o teu nome, és presença breve inconstante. sinto os cheiros verdes do limão. como é doce esse azedo gosto que te sinto na língua. tudo o que faço é encontrar-te significados.

não, isto não é um poema.

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e fico a pensar-te ausente no meio dos outros. batem palmas, acenam-me e, eu, aceno-te onde estás. então me sobes e me cresces, caminhas nas veias, não és sangue, és o suor que me cobre desde o queixo até o peito, nos cantos da boca dança a língua. enquanto todos me acenam, eu aceno-te, me cais na boca, bebo-te húmida, o suor se faz suco, como as laranjas doces que saboreio-lhes os gomos, um a um, para nunca esquecer que te amei; que te amei maior que o universo, porque o mundo é um lugar distante; que te amei mais do que a existência, porque existir é uma viagem longa e tediosa; tenho-te o amor breve, porque intensos são os sabores dos frutos da época; tenho-te o amor inconsciente, que será dos sentimentos quando lhes darmos a razão dos humanos ou o pudor das aparências? não, o meu amor não é comparência, é presença, intemporal; não me quero eterno, como não é eterno o amor que te dedico; quero-te antes em todos os tempos, esse lugar que não pode caber nas nossas mãos; porque não me quero deitar nunca, no teu corpo, sem a estranha vontade de pedir-te, vamos fazer amor, com o desespero de quem não guarda certezas nenhumas sobre o tempo e as vontades.

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ainda sou o mesmo – e não me envergonho – apesar da saudade que sinto do tempo que foi. ser alguma coisa era o princípio, sem deixar que o caminho fosse feito por memórias póstumas. ser o mesmo não é, de todo, o que esperava do futuro, mas o que fazer se em tudo vejo a mesma infância que fui. acreditava num mundo melhor e ainda acredito; isso sem contar que o mundo é grande e tenho o coração aos bocados, fragmentos de medos, incertezas, amores; nos caminhos por onde passo, levantam-se as areias leves e cheirosas onde se apagam os teus passos; agora ando em linhas férreas e no alcatrão; vejo a areia teimosa, nas bermas ou em abismos no meio da estrada; Elis me lembra: eu tenho mais de 20 anos e ainda estou ligado ao velho aparelho da casa do meu pai, onde virei as cassetes, que me deram a primeira metáfora: que a vida tem o lado A e o lado B; pressinto continuar na mesma infância, no exacto instante em que ainda não compreendo de que lado fica está o teu corpo que tanto procuro.

Eduardo Quive,

Aburi, Gana, 21.08.24

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Sobre

EDUARDO QUIVE é jornalista e escritor, baseado em Maputo. Sou trabalho inclui a produção de reportagens multimédia. É autor de dois livros de poesia, um de contos e co-autor de e co-organizador de mais de cinco colectâneas de contos. Ler Biografia

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