A estranha voz que fala no barulho do mundo

“Voz, já te oiço”, revela Suzy Bila, na exposição que inaugurou no sábado, 11 de Maio, na Galeria Arte de Gema em Maputo. Uma afirmação corajosa que só pode vir de quem caminhou sobre pedras até encontrar esse lugar que de tão remoto, várias são às vezes que não se chega ou tarda-se a chegar. Mas onde será e o que caracteriza esse lugar? Que voz é essa que finalmente se fez ouvir?

Desde logo, uma confissão, uma constatação perante a “Voz” que Suzy Bila faz para chamar a nossa atenção. Uma proposta para a pausa no caos, possível apenas se aos olhos emprestarmos o discernimento. Mas também, essa forma vocativa, é a chegada a um destino, como quem enxerga a luz no fundo do túnel, após caminhadas longas na penumbra.

Para ouvir é preciso o silêncio. Há muito por se dizer e escrever sobre esse silêncio necessário para entrar nas profundezas da alma, na imersão pelo território remoto do corpo que, de natureza, está ligado ao exterior. Talvez, por isso, a vida nos passa despercebida, efémera. Somos uma espécie que se move pelo ruído. Pressionados a ignorar os sinais do interior, quando nos chama para o invisível, o abstrato. Num contexto social de disputa pelos espaços e protagonismo, falamos ao mesmo tempo, em línguas diferentes, em palavras divergentes, não há espaço para a escuta; tentados a se sobrepor ao outro ainda gritamos, nos exaltamos e, mesmo assim, custa escutar essa voz serena, prudente, brisa, calmaria e constatação, o lugar de chegada, por isso, próprio para a contemplação, compreensão.

Exposição patente na Galeria Arte d´´´Gema, com a curadoria de Élia Gemusse, até dia 30 de Junho.

Exemplo desse lugar encontra-se nas telas que expressam, de novo a inocência, caminhos feitos sem pretensões, nem ideias preconcebidas, a negação ou os sortilégios da sorte ou azar.

Quando se observa o conjunto de obras em exposição, não se pode ignorar o trabalho que Suzy Bila desenvolve na área da arte-educação, que se foca nas crianças e jovens “problemáticos”, regenerando as suas vindas, ajudando-os a encontrar um caminho através de um espaço que é por excelência, de liberdade, questionamento e humanização, que é a arte. Esses jovens tidos na sociedade como indisciplinados, rebeldes, sem interesse nem “cabeça” para os estudos, encontram na arte as suas “vozes” e os seus “eus” que os sistemas formais sequer se deram a paciência de achar. Esse tem sido seu foco, quer na formação académica – doutoranda em Educação Artística – ou profissionalmente – trabalha como Educadora de Infância numa Equipa de Intervenção e Capacitação Familiar da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

Por tudo isso, a artista dedica tempo e suor a compreender o outro. E esse trabalho em muito implica a ouvir as histórias de vida e compreender a complexidade de quem as conta.

Espectadora contemplando a obra “Criança que mora em mim” | Técnica: acrílico e tinta da china sobre papel.

A forma como concebe as suas obras já denuncia uma alma comprometida em compreender a essência da condição humana e toda a sua complexidade. Esse processo é também sobre si. Quando a artista lança a tinta sobre tela já aí se estabeleceu um processo endógeno de busca, encontros e reencontros. A forma como compõe as telas vai carregar esse desejo de encontrar outros caminhos, finalmente, o outro, respeitando o processo e o tempo. Por isso, deitar os olhos sobre a pintura de Suzy Bila é um processo de autorreconhecimento. Porque a artista não se distancia da obra, pelo contrário.

Suzy é introspectiva. A sua vocação sempre foi para o interior, para o âmago, para os lugares obscuros e inacessíveis para os que temem a realidade do corpo. Que é líquido, frágil e matéria-prima de um plano maior do que está ao alcance dos olhos desprovidos de coragem. Olhar para dentro requer coragem, mas antes de tudo, requer disponibilidade e consciência para os ciclos. Corremos em direcção ao nada, ao vazio. Não se trata de um abismo iminente, não; no lugar de uma infinita escuridão, há o vazio, o silêncio, a recolha. Estacionados nesse lugar de dentro onde somos “nus”, um outro portal se abre. É aí onde habita a voz. A voz que já podemos ouvir com todos os seus ecos, com a simplicidade que não se lhe compara a nada, com a verdade imaterial e inconclusa. Sem amarras, senão com nós mesmos.

Nos tempos que correm a escuta é um elemento precioso e raro. O tempo de escuta, esse que ainda não está à venda no bazar da ambição e da ganância, esse que não exige nada para além da nossa total e completa disponibilidade, é uma raridade que anda à nossa volta, vai dando sinais ao corpo e à mente de quando em vez, mas quem se dará ao tempo?

Suzy Bila ao lado do seu mestre Noel Langa, na inauguração da exposição

Num mundo em frenesim constante, pressionados a realizações com a agilidade dos mágicos, haverá espaço para a mera contemplação? Haverá sequer, espaço para estar e ser com os outros? Não será a falta de tempo em si, uma perca de tempo para o que realmente importa, o que não se exalta e nem pode disputar o protagonismo com o material da nossa loucura colectiva? Não é o outro esse espelho indiscreto, do que somos, mas sequer nos reconhecemos, na cegueira do ego? Esses são alguns dos questionamentos dessa afirmação: “Voz, já te oiço”.

Texto e fotos: Eduardo Quive

Maputo, 14/05/2024

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Sobre

EDUARDO QUIVE é jornalista e escritor, baseado em Maputo. Sou trabalho inclui a produção de reportagens multimédia. É autor de dois livros de poesia, um de contos e co-autor de e co-organizador de mais de cinco colectâneas de contos. Ler Biografia

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