Na nova exposição intitulada “imediatismo”, o fotógrafo Mário Macilau, coloca nos seus retratos à preto e branco, a alma dos ignorados na exploração desenfreada dos recursos.
Os rostos e os corpos “gastos”, pálidos, mostram na perfeição das rugas de quem vêem a idade e a vida a avançar, tudo à sua volta a transformar-se em pó e num abismo onde cabem todas as ambições e a ganância do Homem. A olhar pelos rostos que nos são apresentados, constata-se a pobreza das gentes dos lugares ricos em recursos minerais, por exemplo. Lugares em que a riqueza se expõe no meio de uma pobreza estrema. E o lixo dos ricos é o luxo dos pobres, como pode-se perceber pelas imagens extraídas da maior lixeira da capital moçambicana, em Hulene.
No olhar, nas feições simples, inocentes até, das crianças e dos idosos, nota-se toda uma cadeia de desesperanças no trabalho que Macilau apresenta. São os corpos que sobram e resistem da degradação. O fotógrafo procura expor mais do que as evidências de que esses corpos se recompõem todos os dias à margem. Leva-nos para dentro da alma das personagens, instigando o espetador a uma leitura da narrativa das vidas representadas, “preto no branco”. Ele que já explicou a escolha desse caminho à duas cores, “o preto e branco proporcionam uma conexão mais forte(…). Torna uma imagem atemporal, quase como uma memória.”
O conjunto de fotografias percorre ao consumismo e as vítimas de um sistema que já vem a controlar os estilos de vida e as sociedades há anos. Os rostos de gentes carregadas e revestidas de silêncios e o que representa a força bruta de trabalho, não são propriamente de denúncia, são sobretudo o escancarar da dura realidade que se sobrepõe toda voracidade do capitalismo que avança e arrasta consigo as pessoas, os lugares, a qualidade de vida, as expectativas e o futuro, uma vez afectar a abundância doutros recursos vitais, como a água, a qualidade dos solos para agricultura e o ar.
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Macilau tornou-se numa referência enquanto fotógrafo que vai ao encontro dos “invisíveis”. Os homens, as mulheres e as crianças das periferias do mundo, marginalizados e vendidos ao preço da ilusão, procura mais uma vez fazer uma abordagem provocadora, instigante. Em “imediatismo” talvez se volte à questão ambiental, mais no modo reconfigurado, como as pessoas nos lugares de abundância de recursos são insignificantes e invisíveis diante do carvão, do gás, do petróleo ou outros minérios que realmente importam para a sociedade de consumo e grandes corporações. Nesse sentido, o que se expõe é também a outra face dos negócios dos recursos e os contratos que desvalorizam as populações. O próprio fotógrafo já assumiu usar a lente como “ferramenta de intervenção social”.
Embora fotografe esses marginalizados, mas também de condição de vida precária, Macilau procura dar-lhes dignidade, personalidade e carácter. Vai ser por isso, que algumas dessas personagens, se nos apresenta com os seus utensílios, outros estilosos, com adereços e acessórios de estilo. Mesmo os rostos mais enrugados, não são de grito nem desespero, são sobretudo almas vivas, pertencentes a um lugar e que assistem às mudanças, em meio a promessas e expectativas de um melhor futuro, que contrasta com o que vislumbram.
A exposição esteve patente de 10 de abril a 10 de maio, no Centro Cultural Franco Moçambicano, em Maputo. Texto originalmente publicador no RADAR – MAPUTO FAST FORWARD


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